entrevista GUILA – Português
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3.
DNB: Sua trajetória reúne o universo acadêmico, a diplomacia, a arte e o engajamento cidadão. Como essas diferentes dimensões se encontram em Woman on Rope?
GCK: Acredito que Woman on Rope seja justamente o ponto de encontro de todas as dimensões que moldaram minha trajetória.
O universo acadêmico me ensinou a analisar os mecanismos das desigualdades e a documentar os obstáculos que ainda limitam a emancipação das mulheres. A diplomacia me permitiu compreender como são construídas as decisões internacionais e o quanto a representação feminina permanece insuficiente em muitos espaços de poder.
Meu engajamento cidadão levou-me ao encontro de mulheres que resistem diariamente à violência, à exclusão e à discriminação. Já a arte me ofereceu uma linguagem capaz de tornar visíveis realidades que números e discursos nem sempre conseguem transmitir.
Foi dessa convergência que nasceu Woman on Rope. O filme parte de uma ideia simples: transformar um gesto físico em linguagem universal. A ascensão de uma mulher por uma corda torna-se uma metáfora dos esforços, obstáculos e conquistas que marcam a história das mulheres ao redor do mundo.
O corpo transforma-se em narrativa. A corda torna-se memória e também um eixo cronológico que percorre as grandes etapas da história dos direitos das mulheres, das lutas do passado aos desafios que permanecem no presente.
O que mais me interessa nessa obra é que ela não procura apenas explicar uma realidade, mas fazê-la ser sentida. Durante anos, expressei meu compromisso por meio de pesquisas, conferências e iniciativas diplomáticas. Com Woman on Rope, quis mobilizar outro registro: o da emoção e da experiência vivida.
Porque certas verdades são mais profundamente compreendidas quando passam pelo corpo do que apenas pelas palavras.
5.
DNB: O filme retrata diversas etapas marcantes da história dos direitos das mulheres. Entre esses momentos, qual ressoa mais fortemente com os desafios enfrentados pelas mulheres atualmente?
GCK: Se tivesse de escolher um momento particularmente conectado aos desafios atuais, não destacaria necessariamente uma vitória específica, mas uma tomada de consciência: a de que os direitos das mulheres jamais estão definitivamente garantidos.
Durante muito tempo, tendemos a enxergar a história dos direitos das mulheres como uma trajetória contínua de progresso. O direito ao voto, o acesso à educação, ao trabalho, à propriedade e aos espaços de liderança pareciam indicar um caminho irreversível rumo à igualdade.
No entanto, a atualidade nos lembra regularmente que essas conquistas podem ser questionadas. Em várias regiões do mundo, mulheres continuam privadas da educação, da liberdade de circulação ou da participação na vida pública. Em outros contextos, direitos considerados consolidados voltam a ser debatidos ou sofrem retrocessos.
Essa fragilidade das conquistas históricas é, provavelmente, a principal lição para o presente.
Foi também uma das razões pelas quais construí Woman on Rope como uma ascensão e não como uma chegada. Não existe um ponto final em que possamos afirmar que a igualdade foi plenamente alcançada.
Cada geração herda as conquistas das mulheres que vieram antes, mas também assume a responsabilidade de protegê-las e ampliá-las.
Outro momento do filme que considero particularmente atual é aquele em que as mulheres começam a reivindicar seu lugar nos espaços de decisão. Um dos grandes paradoxos do nosso tempo é que as mulheres estão mais escolarizadas, mais presentes na economia e mais visíveis no debate público, mas continuam sub-representadas nos locais onde são tomadas as decisões mais importantes.
Seja na diplomacia, na governança, na economia ou nas novas tecnologias, a questão permanece a mesma: quem participa da construção do futuro?
Essa pergunta atravessa toda a história dos direitos das mulheres e continua extremamente atual.
No fundo, a mensagem do filme é simples: a igualdade não é um estado permanente, mas um movimento contínuo. Ela exige vigilância, compromisso e a disposição de continuar avançando.
6.
DNB: Como Artista da UNESCO para a Paz, você acredita que a arte pode influenciar decisões políticas e diplomáticas de uma forma que outros meios de comunicação nem sempre conseguem?
GCK: Absolutamente. Tenho essa convicção porque vi, em diversas ocasiões, a arte produzir efeitos que discursos políticos, relatórios técnicos e até negociações diplomáticas muitas vezes não conseguem alcançar.
A arte possui uma capacidade única: ela fala diretamente à nossa humanidade comum. Enquanto os argumentos procuram convencer, a arte permite sentir. E aquilo que é sentido costuma deixar uma marca mais duradoura do que aquilo que é apenas compreendido.
Pude observar isso em contextos muito diferentes. Vi como o violoncelo de Claire Oppert foi capaz de aliviar o sofrimento de pacientes em cuidados paliativos na França, revelando a capacidade da arte de tocar o ser humano em seus momentos de maior vulnerabilidade.
Também testemunhei como oficinas artísticas reunindo jovens israelenses e palestinos conseguiram criar uma linguagem comum em situações nas quais a história, as palavras ou a política pareciam ter alcançado seus limites.
Da mesma forma, observei como uma simples canção do movimento cidadão Le Balai Citoyen, em Burkina Faso, tornou-se um poderoso instrumento de mobilização coletiva e acompanhou as aspirações democráticas de toda uma geração.
Foi justamente essa convicção que me levou a desenvolver, todos os anos na UNESCO, o Fórum Internacional World Art Day. O encontro reúne artistas, filósofos, ativistas, profissionais da saúde, representantes institucionais e especialistas internacionais para refletir sobre três dimensões que considero fundamentais: a arte como instrumento de cuidado, a arte como motor de engajamento cidadão e a arte como ferramenta de educação para a paz.
Mas o que mais me impressiona nesses encontros não são apenas as discussões intelectuais. São os momentos em que uma apresentação artística interrompe os debates e permite que os participantes vivenciem uma experiência comum.
Muitas vezes esquecemos que a arte não se limita a transmitir uma mensagem; ela cria uma emoção compartilhada. E essa emoção pode abrir espaços de diálogo que as dinâmicas diplomáticas tradicionais nem sempre conseguem construir.
Não acredito que a arte substitua a política ou a diplomacia. Contudo, acredito que ela as prepara. Ela cria as condições humanas que tornam determinadas decisões possíveis.
A arte nos reconecta à dignidade humana, ajuda-nos a reconhecer nossa vulnerabilidade comum e a enxergar o outro de forma diferente. E quando uma obra consegue transformar um olhar, ela já começou a transformar o mundo.
7.
DNB: Woman on Rope foi apresentado em Cannes, um dos maiores símbolos da cultura mundial. O que significa para você levar essa mensagem a uma audiência internacional nesse cenário?
GCK: Apresentar Woman on Rope em Cannes foi um momento particularmente marcante, não apenas pelo prestígio do Festival, mas porque Cannes é um lugar onde a cultura se transforma rapidamente em uma linguagem global, capaz de alcançar públicos extremamente diversos.
O filme foi exibido em diferentes contextos, especialmente no Hotel Martinez e durante um evento promovido pela Time Magazine France. O que mais me marcou foi a diversidade de conversas que surgiram a partir dessas apresentações.
Artistas, jornalistas, líderes de opinião, agentes culturais e representantes institucionais compartilham o mesmo espaço, criando uma ressonância única para mensagens relacionadas aos direitos das mulheres.
No ano anterior, realizei um gesto simbólico ao lançar uma pomba no tapete vermelho. Embora simples em aparência, aquele momento carregava uma intenção profunda: lembrar que a arte e os símbolos podem reintroduzir uma dimensão de compromisso e paz em espaços de grande influência global.
Neste ano, a subida do tapete vermelho ganhou uma nova dimensão graças à parceria com a De Beers, empresa comprometida com iniciativas desenvolvidas ao lado da ONU Mulheres.
Essa associação fazia sentido porque aproximava um dos momentos mais visíveis da cultura internacional de uma causa concreta: a autonomia das mulheres e a defesa de seus direitos.
Para mim, esses momentos ilustram uma mesma convicção: os símbolos importam.
Em um mundo saturado de mensagens, muitas vezes são os gestos, as imagens e as presenças que permanecem por mais tempo na memória coletiva.
Nesse contexto, o tapete vermelho deixa de ser apenas um espaço de representação e passa a ser também um espaço de significado.
É isso que Cannes representa para Woman on Rope. O filme não se dirige apenas a um público especializado, mas a uma audiência global sensível ao poder das imagens e das narrativas.
8.
DNB: O apoio de Sharon Stone trouxe uma visibilidade adicional ao projeto. Como esse encontro aconteceu e o que ele simboliza para a causa que você defende?
GCK: Esse encontro aconteceu de maneira bastante natural durante um gala da BWF, no qual atuei como mestre de cerimônias.
Em eventos desse tipo, não se trata apenas de conduzir discursos e apresentações. Também se criam espaços de diálogo entre pessoas que compartilham sensibilidades semelhantes, mesmo sem terem se encontrado anteriormente.
Nesse contexto, também conduzi diversas masterclasses sobre a participação das mulheres na diplomacia, reunindo participantes de diferentes países.
Foi nesse ambiente que tive a oportunidade de conversar com Sharon Stone.
Apresentei a ela meu trabalho e, em particular, Woman on Rope, explicando a proposta artística e política que sustenta o projeto, especialmente a intenção de tornar visíveis, por meio da linguagem corporal, os obstáculos que ainda limitam o acesso das mulheres aos direitos e aos espaços de decisão.
Pouco antes, ela havia realizado um discurso extremamente forte sobre a necessidade do amor universal, sobre a importância de permanecer plenamente vivo diante das adversidades e sobre a capacidade de acolher toda a experiência humana, incluindo suas contradições e dores.
Ela se mostrou profundamente sensibilizada por essa abordagem e pela mensagem de inclusão efetiva das mulheres nos espaços de poder, especialmente nas mesas de negociação diplomática.
Houve uma identificação imediata em torno da ideia de que as mulheres não devem ser apenas simbolicamente representadas, mas plenamente integradas aos processos de tomada de decisão.
Posteriormente, o apoio de Sharon Stone trouxe ainda mais visibilidade ao projeto.
Mais do que um gesto pontual, esse apoio está alinhado ao seu histórico de compromisso com causas humanitárias e sociais, incluindo sua atuação na luta contra o HIV/AIDS, iniciativas globais de saúde e campanhas em defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.
Esse encontro reforça algo em que acredito profundamente: os avanços em matéria de direitos das mulheres não são construídos apenas dentro das instituições ou em conferências internacionais. Eles também nascem de conexões humanas capazes de gerar novas formas de engajamento e transformação.
9.
DNB: O filme foi rodado entre Paris, Genebra e Nova York, três cidades profundamente ligadas à diplomacia internacional. Essa escolha foi simbólica?
GCK: Sim, absolutamente. A escolha dessas três cidades foi profundamente simbólica e esteve presente desde a concepção do projeto.
Paris, Genebra e Nova York não foram selecionadas apenas por sua relevância cultural ou pela força de suas imagens. Elas representam espaços onde se constroem ideias, normas e decisões que influenciam milhões de pessoas ao redor do mundo.
Paris ocupa um lugar singular na história dos direitos humanos, da cultura e do pensamento universalista. É também a sede da UNESCO, organização com a qual mantenho uma relação próxima por meio do meu trabalho como Artista para a Paz.
Genebra representa o coração da diplomacia multilateral. É uma cidade onde organizações internacionais trabalham diariamente para enfrentar desafios globais ligados à paz, aos direitos humanos e ao desenvolvimento.
Nova York simboliza o centro das grandes decisões internacionais por meio das Nações Unidas e das discussões que moldam o futuro das relações globais.
Ao situar Woman on Rope entre essas três cidades, quis inscrever a narrativa do filme em um espaço simbólico que ultrapassa fronteiras nacionais.
A corda não representa apenas uma experiência individual. Ela atravessa lugares onde são debatidas questões fundamentais relacionadas à igualdade, à paz, à justiça e aos direitos humanos.
Existe também uma dimensão visual e narrativa nessa escolha. Cada cidade oferece uma energia distinta e uma forma própria de representar a busca por progresso e transformação.
Juntas, elas compõem uma geografia simbólica da ascensão retratada no filme.
10.
DNB: Você fundou o Fórum Internacional Femina Vox e participa da iniciativa Femina Pax. Na sua visão, qual papel as mulheres devem desempenhar nas negociações de paz e nos processos decisórios em escala global?
GCK: Estou convencida de que as mulheres não devem apenas participar das negociações de paz e dos processos decisórios globais; elas precisam estar presentes em posições que lhes permitam influenciar efetivamente os resultados.
Essa convicção baseia-se, antes de tudo, em uma constatação objetiva.
A Resolução 1325 do Conselho de Segurança das Nações Unidas representou um marco histórico ao reconhecer oficialmente o papel das mulheres na prevenção e resolução de conflitos.
No entanto, mais de duas décadas após sua adoção, as mulheres continuavam representando uma parcela reduzida dos negociadores, mediadores e signatários de acordos de paz.
Durante muito tempo, elas foram vistas principalmente como vítimas dos conflitos, quando na realidade também são mediadoras, negociadoras, lideranças comunitárias e protagonistas essenciais da reconstrução social.
Foi justamente essa realidade que inspirou meu trabalho por meio do Fórum Internacional Femina Vox e, posteriormente, da iniciativa Femina Pax.
Meu objetivo é contribuir para uma mudança de perspectiva sobre o lugar das mulheres na governança global.
Não se trata apenas de defender sua participação, mas de reconhecer seu direito legítimo de contribuir para decisões que moldam o futuro de nossas sociedades.
A proposta de estabelecer uma participação mínima de mulheres nas negociações diplomáticas surgiu durante os Peace Talks realizados em Genebra.
Na ocasião, considerei essencial utilizar aquela tribuna internacional para chamar atenção para uma urgência política: a exclusão persistente das mulheres dos processos de paz.
Ao longo dos anos, em encontros com líderes políticos, diplomatas, ativistas e mulheres atuantes em zonas de conflito, percebi que sua presença frequentemente modifica a própria natureza das discussões.
Elas costumam trazer maior atenção a temas como coesão social, educação, saúde, reconciliação e reconstrução de longo prazo — elementos indispensáveis para a sustentabilidade da paz.
Na minha visão, a questão já não é saber se as mulheres têm lugar nos processos decisórios globais. Esse lugar lhes pertence naturalmente.
A verdadeira pergunta é por que continuamos a privar nossas sociedades de sua contribuição justamente nos momentos mais decisivos da história coletiva.
A paz não pode ser construída para as mulheres; ela deve ser construída com elas.
DNB: Em 2025, você recebeu o título de Woman of the Decade durante o Women Economic Forum. Quais transformações ainda são necessárias para que a autonomia das mulheres se torne uma realidade concreta em escala global?
GCK: Receber o título de Woman of the Decade durante o Women Economic Forum foi um momento marcante. Mais do que um reconhecimento, ele me trouxe uma responsabilidade: olhar com lucidez para aquilo que ainda precisa ser transformado para que a autonomia das mulheres deixe de ser uma meta e se torne uma realidade concreta.
A primeira transformação diz respeito à aplicação efetiva dos direitos já existentes. Em muitos países, os marcos legais avançaram significativamente. No entanto, a distância entre a lei e a realidade permanece considerável.
Não pode haver autonomia verdadeira se uma mulher não for protegida da mesma forma dependendo do lugar onde vive, se seus direitos variarem conforme as instituições locais ou se a violência continuar impune devido à falta de aplicação efetiva das leis.
A segunda transformação é econômica. O acesso das mulheres a recursos, capital, posições de liderança e reconhecimento profissional continua profundamente desigual.
Enquanto elas seguirem assumindo uma parcela desproporcional do trabalho não remunerado e permanecerem sub-representadas nos setores mais estratégicos da economia, a autonomia continuará incompleta.
A terceira transformação é institucional e política. A presença feminina nos espaços de poder ainda é insuficiente, especialmente nas esferas diplomáticas, nos processos de paz e nos organismos internacionais de decisão.
Sua participação não é apenas uma questão de representatividade. Ela modifica a própria natureza das decisões ao introduzir perspectivas mais amplas sobre o longo prazo, a coesão social e o desenvolvimento sustentável.
Por fim, existe uma transformação ainda mais profunda: a das mentalidades.
Enquanto liderança, autoridade e legitimidade permanecerem associadas, mesmo inconscientemente, a modelos predominantemente masculinos, os avanços continuarão frágeis.
Os progressos alcançados são reais, mas ainda não são estruturais em todas as partes do mundo. O desafio dos próximos anos é torná-los irreversíveis.
12.
DNB: Atualmente, muitas empresas colocam a diversidade, a inclusão e os critérios ESG no centro de suas estratégias. Qual é, na sua visão, a contribuição das mulheres para a construção de organizações mais humanas, inovadoras e sustentáveis?
GCK: O setor privado desempenha um papel determinante na promoção da igualdade, não apenas porque é um espaço econômico, mas porque se tornou um ator central das dinâmicas sociais e, cada vez mais, geopolíticas.
Nas empresas que acompanho há mais de quinze anos, na Europa, no Oriente Médio, na África e na Ásia, uma constatação se impõe: a empresa é um dos raros lugares onde indivíduos de culturas, religiões e histórias diferentes continuam trabalhando juntos diariamente.
Enquanto as relações políticas se tensionam e os discursos se polarizam, o trabalho mantém formas concretas de cooperação.
Essa realidade faz do ambiente empresarial um espaço onde a igualdade não pode permanecer apenas como conceito; ela precisa ser vivida nas equipes, nas decisões e nas cadeias de valor.
Por isso, as empresas possuem uma responsabilidade singular. A igualdade não pode ser reduzida a princípios declarados. Ela deve se traduzir em práticas concretas de governança, acesso a cargos de liderança e valorização de talentos.
Nesse contexto, programas de formação e desenvolvimento voltados ao fortalecimento da liderança feminina desempenham um papel essencial. Eles ajudam a superar barreiras relacionadas a vieses inconscientes e criam condições reais de acesso aos espaços de decisão.
Além disso, iniciativas como o selo Economica Pax, apresentado em Davos, reforçam a ideia de que o mundo empresarial pode ser um espaço de cooperação entre atores que, em outros contextos, poderiam estar em oposição.
Sob essa perspectiva, o setor privado não atua apenas como apoiador da igualdade; ele é um de seus vetores mais concretos.
13.
DNB: Woman on Rope parece ser muito mais do que um filme; aproxima-se de um verdadeiro manifesto. Você pretende transformá-lo, no futuro, em uma performance internacional ou em um movimento permanente de conscientização?
GCK: Não vejo esse projeto dentro de uma lógica de seguidores ou de construção de audiência nas redes sociais.
Aliás, não estou presente em nenhuma rede social, e essa é uma escolha deliberada. Não procuro reunir uma comunidade em torno de uma imagem ou de uma visibilidade pessoal.
O que busco são interlocutores.
Pessoas, artistas, instituições, pensadores e diplomatas que não sejam apenas espectadores, mas agentes efetivamente comprometidos com a promoção dos direitos humanos.
Nessa perspectiva, Woman on Rope ultrapassa os limites de um filme.
Mas não o concebo como um movimento no sentido tradicional do termo, muito menos como uma marca.
Prefiro vê-lo como uma linguagem viva, capaz de circular entre diferentes espaços — culturais, diplomáticos e educacionais — provocando novas reflexões e diálogos.
A proposta não é criar adesão em massa, mas encontrar pessoas e instituições capazes de estabelecer uma conexão genuína com essa abordagem e prolongá-la à sua maneira.
Se Woman on Rope evoluir no futuro, será menos na direção de uma estrutura formal e mais como uma série de desdobramentos vivos: apresentações, encontros, debates e iniciativas capazes de ampliar a reflexão sobre os direitos humanos.
14.
DNB: Você atua regularmente junto a organizações internacionais, governos, universidades e empresas. Onde acredita que as mudanças mais decisivas para o avanço dos direitos das mulheres ainda precisam acontecer: nas instituições, na educação, na economia ou na cultura?
GCK: Se tivesse de apontar hoje o fator mais decisivo para promover avanços duradouros nos direitos das mulheres, eu diria: a justiça.
Mais especificamente, a aplicação efetiva e equitativa da lei.
Em muitos países, os instrumentos jurídicos já existem. Os direitos estão previstos nas constituições, convenções internacionais foram ratificadas e as legislações foram fortalecidas.
Apesar disso, para milhões de mulheres, a realidade cotidiana continua marcada pela violência, pela discriminação e pela impunidade.
O problema nem sempre é a ausência de normas legais, mas a sua aplicação desigual.
O Brasil oferece um exemplo particularmente relevante por meio da Lei Maria da Penha, considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra a mulher.
Essa lei representou um avanço histórico. Contudo, sua eficácia depende da capacidade de ser aplicada com o mesmo rigor em todas as regiões do país.
Uma lei só transforma verdadeiramente a sociedade quando protege efetivamente cada cidadã, independentemente do lugar onde ela vive.
Naturalmente, a educação continua sendo fundamental para transformar mentalidades, e a autonomia econômica permanece indispensável para a emancipação.
Mas sem justiça, esses avanços permanecem frágeis.
A justiça é o ponto de encontro entre princípios e realidade. É ela que transforma direitos teóricos em direitos efetivos.
15.
DNB: Se pudesse transmitir uma única mensagem às futuras gerações de mulheres que aspiram ocupar espaços de liderança, influência e transformação social, qual seria?
GCK: Se eu pudesse transmitir uma única mensagem às futuras gerações de mulheres que desejam assumir responsabilidades, influenciar o mundo e promover mudanças, ela seria esta: nunca percam a capacidade de conciliar convicção e diálogo.
Tenho profunda admiração pelo engajamento das novas gerações.
Elas carregam uma exigência de justiça, igualdade e responsabilidade que impulsiona nossas sociedades a evoluírem mais rapidamente. Também possuem a coragem de trazer à luz realidades que, por muito tempo, preferimos ignorar.
Mas acredito igualmente que liderança não consiste apenas em denunciar injustiças.
Liderança também significa construir soluções, reunir pessoas que nem sempre pensam da mesma forma e criar condições para um progresso duradouro.
Em um mundo marcado pela polarização e pela velocidade das redes sociais, é fácil transformar o outro em adversário.
No entanto, as grandes transformações sociais raramente nascem apenas do confronto. Elas surgem da capacidade de convencer, dialogar e construir alianças.
Por isso acredito profundamente na importância da educação para a paz, para a escuta e para a empatia desde a infância.
Aprendi que essas competências não são secundárias. Elas constituem a base do verdadeiro exercício da liderança no futuro.
Às jovens mulheres que sonham ocupar espaços de liderança, eu diria: ocupem seu lugar, façam ouvir sua voz, mas jamais abandonem a capacidade de enxergar as nuances.
Preservem sua exigência de justiça, ao mesmo tempo em que cultivam a capacidade de criar pontes e conexões.
Porque o verdadeiro poder não reside apenas na capacidade de desafiar a ordem estabelecida, mas também na habilidade de construir um futuro do qual outras pessoas desejem fazer parte.
A transformação mais duradoura não é aquela que divide. É aquela que une.











