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Polilaminina, a “proteína de Deus”: avanço brasileiro na regeneração da medula espinhal

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A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lidera a pesquisa sobre a polilaminina, molécula sintética desenvolvida a partir da laminina — proteína naturalmente presente no organismo humano e essencial para a formação do sistema nervoso durante a fase embrionária. A polilaminina tem demonstrado capacidade de estimular a regeneração de fibras nervosas, abrindo novas perspectivas para pacientes com lesões medulares.

Produzida artificialmente a partir da laminina, a substância busca promover a reconexão dos axônios, estruturas dos neurônios responsáveis pela condução dos impulsos nervosos. Em tom bem-humorado, Tatiana descreve as propriedades únicas da molécula: “A laminina tem formato de uma cruz. A polilaminina são várias de mãozinhas dadas. Não conta para ninguém… Graças a Deus, ainda não saiu isso, porque no dia que sair eu estou perdida, porque aí vão dizer mesmo que é proteína de Deus”.

Estudos preliminares conduzidos pela UFRJ em parceria com o laboratório Cristália indicam que a polilaminina pode favorecer a recuperação parcial da mobilidade em pacientes com lesões graves, incluindo casos de paraplegia e tetraplegia. Entre os resultados observados, oito pacientes receberam a aplicação experimental: seis apresentaram melhora parcial da mobilidade e um recuperou a capacidade de deambulação. O primeiro caso brasileiro foi de Luiz Otávio Santos Nunez, um militar de 19 anos, que após 12 dias de tratamento apresentou recuperação de movimentos na ponta de um dos dedos.

A administração da polilaminina deve ocorrer preferencialmente nas primeiras 72 horas após o trauma, período definido como janela terapêutica, uma vez que lesões crônicas reduzem significativamente a capacidade de regeneração devido aos processos patológicos já instalados.

Atualmente, a substância encontra-se em fase experimental. Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do estudo clínico de fase 1, que avaliará a segurança da polilaminina em voluntários com lesões agudas completas da medula espinhal torácica. Paralelamente, decisões judiciais têm permitido que alguns pacientes tenham acesso à substância fora dos ensaios oficiais, sempre com acompanhamento médico, ainda que não integrado aos protocolos de pesquisa.

Especialistas ressaltam que, embora os resultados sejam promissores, ainda são necessários estudos controlados para comprovar a eficácia da polilaminina, já que parte da recuperação observada poderia ocorrer de forma espontânea.

A iniciativa evidencia o potencial da pesquisa científica brasileira em terapias regenerativas, com impacto direto na qualidade de vida de pacientes com lesões medulares, e reforça a importância da integração entre universidade, indústria e órgãos regulatórios para o desenvolvimento de novas tecnologias médicas.

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